I Circuito da Granja do Marquês

Em Junho de 1967 , pela primeira vez , disputam-se corridas na Granja do Marquês , nome "civil" da base Aérea de Sintra , em cujo traçado se desenhou um circuito rápido e razoavelmente seguro , tudo resultado da inspiração do tenente-Coronel Hipólito da Fonseca , uma figura notável da cena do automobilismo desportivo nacional da década de 60 . Ernesto Neves participa na corrida de "Turismo" com o Cooper , tendo obtido o segundo lugar , logo atrás do Cortina Lotus de António Peixinho . Na corrida principal , "Grande Turismo , Desporto e Protótipos" , classifica-se em quinto lugar da geral , com o Lotus Elan , mas vence o agrupamento de "Grande Turismo" . À sua frente ficam os três Lotus 47 de Lampreia , Nogueira Pinto e Luis Fernandes ,  todos claramente de "outro campeonato" , e o Healey de Vasco Pinto Basto , que se aproveita de uma avaria do Elan para o ultrapassar sobre a linha de chegada .


Veja-se o "fato de competição" de Nené : shorts , polo encarnado e sapatos "Gucci" . Mas que faria ele , sentado no solo , antes da partida ?





Na corrida de "Turismo" , o Morris Cooper S de Ernesto Neves demonstra como curvar ... em três rodas !

Reparem na "toilette" : sapato Gucci , meia a condizer e ... calça "arregaçada" . Debaixo do "sombrero" está o inseparável Miguel Rau , aparentemente dando a "táctica" para a corrida . Mas , conhecendo eu os protagonistas , suspeito que o assunto da conversa era tudo menos automóveis ... E aquele chapéu parecia obrigatório , até mesmo para passear no Ferrari 250 GT Cabrio do irmão Luis .

O Coleccionador

No dia segunite à distribuição dos prémios da Rampa da Pena , um jornal desportivo publicou a fotografia em baixo com a legenda "Ernesto Neves com todos os seus troféus" . Consta que o pai da jovem não ficou muito impressionado com a referência .



Ernesto Neves  começa a revelar a sua faceta de coleccionador , açambarcando toda a espécie de troféus a um ritmo alucinante . Como aqui se vê , o Lotus é demasiado pequeno para acomodar as taças , os louros e ... Pois é . Aqui se conclui que o "Nené" não era bom apenas a pilotar carros de corrida , como se comprovaria de agora em diante . Tinha muitos outros atributos que o recomendavam . Quer dizer , com uns pequenos "sobressaltos" aqui e acolá .



Durante os treinos privados que antecederam a Rampa da Pena , "Nené" costumava levar consigo alguns convidados ,  no lugar do "pendura" , com a específica missão de fazerem a cronometragem dos troços .  Numa das vezes  levou consigo a jovem que o acompanha na imagem a qual , enquanto "Nené"  batia records atrás de records ,  gritava com entusiasmo  «mas isto não anda mais ?»

Começou o Festival !


Chega então a edição de 1967 da Rampa da Pena , prova na qual "Nené" participa com o Cooper em "Turismo" e estreia um Lotus Elan no agrupamento "Grande Turismo" . O resultado é quase um "escândalo" nacional , com o nosso herói a vencer ambas as categorias e , de caminho , a bater os respectivos "records" . "Last , but not the least" , Ernesto Neves regista a sua primeira grande vitória absoluta em provas de velocidade pura . O panorama do automobilismo desportivo em Portugal nunca mais voltaria a ser o mesmo .






Com Giselle Barbosa Araújo , vencedora da Taça de Senhoras

Rallye das Camélias 67


Com José Megre como "pendura" e "Nené" ao volante , a equipa do pequeno Cooper tornou-se na referência dentro da categoria , por todas e mais algumas razões . Conta-se que , num dos troços cronometrados , a "chauffage" se desprendeu da sua fixação e caiu sobre o pé direito de "Nené" , que assim se viu temporariamente impedido de o movimentar . Entretanto , Megre gritava « desacelera , desacelera» quando se aproximavam das curvas mais apertadas , mas o motor do carro continuava no topo das rotações . Só mais tarde entendeu por que andavam a curvar tão depressa ...








Classificação Vila Real 66

O segundo lugar conquistado na corrida de "Turismo" foi compensado com duas belas taças ...

... e acabaria por dar direito a um Diploma .

Circuito de Vila Real , 1966


No circuito de Vila Real de 1966 , "Nené" só não vence a corrida do agrupamento de Turismo porque teve que se curvar perante a potência do Lotus Cortina de um tal ... John Miles . Mas o segundo lugar duramente conquistado vai colocar definitivamente o nome do nosso campeão na lista dos prováveis vencedores , a partir de agora .



Lordelo do Ouro 66

Já poucos se lembram , mas existiu no Porto , além do lendário circuito da Boavista , um outro traçado onde se realizaram corridas de automóveis de alta performance , tais como GT e Protótipos e até ... Formula 3 ! Ficava situado na freguesia de Lordelo do Ouro , passava pela Pasteleira e tinha a meta junto das piscinas do Clube Fluvial Portuense . Diziam que era "um circuito de pilotos" . O carro com o nº 12 era tripulado por um tal Ernesto Luis César das Neves e ficou em 5º lugar na corrida de Turismo .



Antes da partida foi  guardado um minuto de silêncio , em memória de alguém recentemente desaparecido . Todos os pilotos estão junto dos respectivos carros e com o capacete pronto . Excepto ... o Nené , claro , que vemos junto do Alfa de Gaspar a "tirar as medidas" ao carro do Manuel Gião  .

Fotografia de Carlos Gilbert


Circuito de Montes Claros 1966

Em Montes Claros , "Nené" vai estrear o Morris Cooper S "Broadspeed" em provas de velocidade , ao lado de Manuel Gião , Peixinho , César Torres , Lampreia , Augusto Palma , Carlos Gaspar e outros nomes já consagrados do panorama automobilístico nacional . Manuel Gião vence a corrida , mas acaba por ser desclassificado , enquanto Ernesto Neves termina num honroso 5º lugar , entre Peixinho e César Torres . Note-se o coelhinho de peluche no interior do Mini .




O Cooper de "Nené" curva à frente do Renault R8 Gordini de José Lampreia .

Rampa da Pena 1966

E chega o momento da estreia do Morris Cooper S preparado pela Broadspeed . O local é a Rampa da Pena , em Sintra , e o nome do jovem Ernesto Neves nem sequer é mencionado na previsão que Baptista dos Santos faz para o jornal "Motor" na edição que antecede a prova . Porém , "Nené" viria a conquistar o 2º lugar absoluto e só foi batido pelo poderoso Ferrari 275 GTB de Aquiles de Brito tendo , no entanto , vencido a categoria "Turismo" e conseguido um novo record .




Mercedes Geraldes , ela própria piloto de mérito , vai entregar a "Nené" o troféu com o seu nome  relativo ao histórico resultado conquistado na Pena . Este acto marcaria o final da carreira de uma das percursoras do automobilismo desportivo feminino em Portugal .

Jim Russell Racing Drivers School


Nené nunca foi pessoa para perder tempo , bem pelo contrário , e por isso decidiu fazer um breve curso de pilotagem na escola de Jim Russell , em Brands Hatch , enquanto esperava que Ralph Broad lhe "vitaminasse" o Morris Cooper . Depois de um pequeno curso teórico , Ernesto Neves fez algumas voltas num Lotus Elan e acabou o dia ao volante de um Formula Ford tão desafinado que mais parecia "um carrinho de feira". Na imagem de cima , Domingos Sá Nogueira dá apoio moral , enquanto o técnico da escola fala sobre os limites a respeitar .
Gostavam de saber quem é a  menina da fotografia ? Eu também .
http://www.jimrussell.com/index.cfm




Morris Cooper S Broadspeed

Motor 1275 cc , cerca de 100hp , taxa de compressão 10.5 : 1 , dois carburadores SU , escape e árvore de cames de competição . A potência utilizável surge às 3,000 rpm e a velocidade máxima é de 180 km/h .

Rumo a Inglaterra

Em 1966 Nené vai dedicar-se às provas de velocidade e adquire um Morris Cooper S que vai preparar em Inglaterra  nas oficinas de Ralph Broad , a Broadspeed . Para esse fim , nada mais prático que atrelar um reboque ao Porsche , carregar o mini e rolar até Silverstone , onde acabará por dar algumas voltas . Só que , no regresso , chegando a um cruzamento olhou para o "lado errado" e , pumba !!! , desfez a frente do Porsche  que , apesar disso , ainda voltaria  a ser utilizado nesta fase da carreira do Campeão . Refira-se que Ralph Broad está há alguns anos retirado das corridas e vive hoje tranquilamente no Algarve .

A Despedida do Porsche





Com Ricardo Martorell , Nené apresenta-se à partida para o Rallye de Encerramento , assim chamado por se tratar da última prova da época de 1965 . Oportunidade para ganhar mais alguma experiência e fazer as despedidas do Porsche em competição , uma vez que havia novos e aliciantes projectos para 1966 .


A Primeira Grande Vitória

Com Basílio dos Santos partilha o Porsche 356 SC que virá a vencer a Volta a Portugal de 1965 . Apenas dois carros terminaram esta prova , o que diz bem da sua dureza . Os vencedores da XVI Volta a Portugal receberam uma taça de prata e um prémio de 25,000 escudos , quantia que iria ajudar "Nené" a comprar o seu próximo carro de competição : um Morris Cooper S , preparado pela Broadspeed .


Organizada pelo "Clube 100 à Hora" , a XVI Volta a Portugal tinha um percurso de estrada de 3,000 quilómetros , dividido em quatro etapas e com dez provas complementares , uma das quais consistia numa corrida de trinta voltas no circuito de Vila do Conde .

Um "SC" Muito Especial


Em finais de 1964 chega o Porsche 356 "SC" , o mais competitivo da gama dita "normal" , uma vez que os Carrera pertencem a um outro "campeonato" . Normal ??? E como foi possível acomodar quatro jovens adultos no interior de um 356 ? E aquele mega-emblema no capot dianteiro ? Tudo menos "normal" , mas deliciosamente único .


João Lagos ( esse mesmo , o do ténis ) , Luis Neves , Álvaro Montepegado e Nené ( ao volante )

Porsche 356 SC

Motor 1600 cc , 95 hp / 5800 rpm . Dois carburadores Solex 40 PII-4

Rallye da Caparica

Seguiu-se o Rallye à Costa da Caparica , prova organizada pela secção de motorismo do Benfica , que incluía um percurso de estrada com 70 quilómetros e duas provas complementares . O carro utilizado era ainda o 356 B Super e permitiu a vitória na classe . Este Porsche seria também visto no "Rainha Santa" e no Rallye a Tomar antes de ceder o lugar a um bem mais competitivo "SC" .

Gentleman Driver

O Rallye de S. Martinho de 1964 foi ganho por Américo Nunes , em Porsche 356 SC , devendo o estreante Ernesto Neves , num 356 B , contentar-se com um mais que honroso quarto lugar na Geral . Mas leiam este extraordinário excerto da entrevista que o vencedor concedeu , após a prova .
"Para fazer a primeira prova com pouco peso , fui para a estrada com o depósito de gasolina vazio . Nunca mais me lembrei e , perto do Gradil , aconteceu o que era de esperar . Valeu-me o Ernesto Neves que vinha atrás de mim e foi buscar gasolina . O resultado foi chegarmos os dois quase na hora limite ao controle da meta , ele uns 30 segundos antes e eu um pouco mais . Mesmo assim, foi preciso vir sempre a «esfarrapar» , com a chuva e o nevoeiro que apareceram . "
Jornal "Motor" ,19/11/1964


 

O VW Materno

Durante um pequeno período , o Porsche 356 ficou inactivo , devido a um "encontro imediato" que o deixou bastante mal tratado e a precisar de "bate chapa e tinta Robbialac" . Quem se recusou a ficar inactivo foi "Nené" , que logo se apropriou do Volkswagen 1200 de sua Mãe e o "transformou" em carro de corrida , uma "bomba" com 34 cavalos de potência e algumas alterações curiosas , nomeadamente :
- sistema de "arejamento" do motor , com o capot suspenso por um cordel . Segundo Miguel Brito , um "expert" em VWs , o efeito de sucção gerado por esta solução prejudicaria seriamente o arrefecimento dos 4 cilindros .
- faróis de longo alcance Lucas , que favorecem a estética mas sobrecarregam violentamente a bateria de 6 Volts . Idem para o "farolaço" de marcha atrás .
- jantes traseiras instaladas "ao contrário". Melhoram o visual e aumentam a base de apoio , mas produzem um stress enorme nos 5 parafusos que seguram a roda sem qualquer benefício no desempenho do carro .
Seria com um carro idêntico que , em 1966 , Ernesto Neves se apresentaria para disputar uma prova de todo-o-terreno , o Rali dos Montes Alentejanos .